sábado, 21 de julho de 2012

Poker face

Comprei uma porção de móveis novos para equipar a casa, e isso me fez conhecer como funciona cada loja: nas Casas Bahia, por exemplo, você ofende e frustra o vendedor se não levar aquilo que perguntou o preço.
 
Como velhinhos num asilo, as máquinas de lavar do Ponto Frio estavam bem na porta, tomando o sol da manhã. Nenhuma delas tinha preço e todas estavam em oferta. Chamei o vendedor e perguntei pela máquina de 7kg. Não havia. Mas tinha uma de 9kg. Fiz aquelas perguntas que indicam que você tem dinheiro para comprar: em quantas vezes divide, quando entrega, e levantei a tampa do produto, porque entendo tudo da máquina só de olhar para o fundo dela.
 
Baixinho, o vendedor disse: Faço a 10kg pelo mesmo preço da de 9kg – e como nenhuma tinha preço mesmo, eu só podia acreditar e fechar negócio. Fomos para uma mesa preencher dados e ele passou a me explicar como máquinas de lavar são como filha adolescente e vão dar problema com o passar dos anos, e que valia a pena ter a garantia estendida de três anos, a despeito de qualquer profecia maia para 2012.
 
Ele virou a tela do monitor para mim, apontou os valores e olhou para o lado, se certificando que a Polícia especializada em reprimir descontos não estava passando. Então, olhou para mim como um amigo de longa data que compartilha um segredo íntimo e, sem uma palavra, descontou 100 reais do preço da máquina, se eu a levasse junto com a garantia. Concordei, e fiquei esperando pelo gesto secreto da irmandade a qual havia sido acolhido.
 
Do lado de fora, eu e a namorada rolamos de rir: blefar daquele jeito é o que a gente faz todo dia dando aula.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Menino e menina que sabe o que quer

Entrei num desses xerox de universidade, que cobra barato a cópia porque universitário é tudo quebrado e, tirando cópia, se livra de ter que comprar um livro todo e do risco de ter que ler ele inteiro. O lugar era um lugareco, meio-sujo, umas mesas de bilhar com uns desocupados, e três mocinhas de Nutrição na minha frente, com aquele modelinho branco-também-somos-doutoras. 

O rapaz do xerox, treinado, viu nas duzentas folhas que tinha pela frente bastante tempo para se perfazer para as moças, e aí começou a se gabar sobre festas e bandas de rock cujos shows ele considerava bom, e uma hora ele disse CPM 22 e eu quase quis fazer minhas cópias a mão. Uma das mocinhas, que era a mais bonitinha, embora conseguisse figuração fácil de elfo em filme de fantasia, precisava imprimir e lá foram eles para trás do balcão, enquanto o outro atendente veio resolver meu problema. 

Durante as minhas duzentas cópias, o sujeito ficou lá, meninando, mostrando foto da sobrinha no celular e como ele a jogava para cima, e video de seus kickflips na pista de skate, e tirando o óculos de sol do decote da melhorzinha, sem nem pedir licença, e comentando que ficava igual um artista com eles. A mocinha não parecia das mais interessadas, na certa porque o prospecto de cópias grátis não seja o sonho de muita mulher.

Três dias depois, passando de ônibus, reconheci os dois se agarrando na rua. A moça não parecia das mais satisfeitas, mas vai saber, de repente o professor mandou xerocar um livro inteiro essa semana.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Gracinha no ônibus

Há dois tipos de passageiros no ônibus que pego para o trabalho: os universitários que pagam meia passagem, sentido bairro-centro, e os terceira idade que não pagam passagem, sentido centro-outro bairro. Descobri esses dias, então, que a companhia de ônibus está sendo sustentada por mim, a única pessoa na cidade a pagar a passagem integral.

Sexta à tarde, centro-bairro, a menina subiu no terminal de ônibus, sentou perto da porta e ficou por ali para ser motivo da secagem alheia, vestida com uma mini-roupa, modelo está-calor-e-eu-sou-gostosa. Sentou, perguntou ao cobrador onde ficava tal lugar, encostou o braço na janela e fez carinha de impaciente, tudo o que a gente sempre espera de uma mulher bonita.

Dei uma olhada ou duas só por esporte, porque gosto de pensar em mim como um autor de resenhas críticas sobre ônibus. Quando ela sacou o celular do seu micro-shorts jeans e começou a falar com a voz arrastada e o vocabulário de um BBB, eu resolvi que fazia melhor lendo um livro.

Mais para frente, o cobrador começou a fazer gestos frenéticos quando o ponto em que ela devia saltar estava chegando. Ela levantou, segurou firme na barra vertical como quem manja do pole-dancing e a porta abriu. O motorista, lá da frente, ciente de que no seu trabalho tudo é, literalmente, passageiro, mandou Jane e Herondy:

- Não se váaaa…

Na calçada, a mocinha riu da cantada, sem saber que aquela música tinha idade para ser sua avó.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

O problema com meu ouvido

O senhor veio com uma sacola plástica e falando sozinho, quando me viu do outro lado da rua, esperando o ônibus que só ia passar dali 20 minutos. Como eu tenho por talento atrair malucos, ele parou no meio do canteiro e começou a conversar comigo.

Eu tenho uma saída padrão para essas horas: sorrio, balanço a cabeça fazendo que sim e me ocupo de outra coisa – funciona com pessoas normais também. O homem sacou um par novo de havaianas da sacola plástica e me mostrou o quanto era esperto porque não ia jogar o par antigo fora. Como ele falava baixo e num fluxo que daria inveja para Virginia Woolf, eu apontava para o meu ouvido sempre que achava que ele estava perguntando alguma coisa. Na terceira vez, ele resolveu que eu era surdo.

Ele atravessou a rua e começou a fazer mímica bem na minha frente, talvez porque imaginasse que eu também não enxergava direito. Descobri que ele sentia dor nas pernas porque trabalhava varrendo e carpindo e dava graças a Deus por tudo isso e que estava esperando o ônibus e não um carro, por causa do tamanho do volante imaginário. Do meu lado, ele não percebeu que saía música dos meus fones de ouvido soltos por cima do ombro.

Nem pensei em contar que eu escutava normalmente – ele me pareceu bastante satisfeito conversando tão bem com um cara surdo.